Carne bovina no Brasil

Escrito por: Sustennutri

Adaptado por Zootecnista Henrique Costa Filho, MSc

Consultor Técnico Sustennutri

Fonte: Embrapa – Brasil em 50 Alimentos – 2023

Nesse excelente material produzido pela Embrapa em comemoração aos seus 50 anos, é contada a história desde a primeira chegada de bovinos no Brasil até a atual posição de maior exportador mundial.

Estudos antropológicos indicam que a evolução da espécie humana (Homo sapiens) foi grandemente influenciada à medida que a carne de caça passou a compor a sua dieta, há cerca de 4 milhões de anos. Ao longo desse período, o consumo da carne, que combina elevados teores de energia e proteína, implicou uma redução do tamanho do trato gastrintestinal, cuja economia permitiu maior desenvolvimento do nosso energeticamente exigente cérebro, nos padrões como é hoje.  A ligação entre o consumo de carne e a nossa evolução é reforçada pelo fato de que muitos dos nutrientes que precisamos ingerir são componentes que ocorrem naturalmente na carne, tais como o aminoácido taurina e os ácidos graxos poli-insaturados de cadeia longa.  O consumo da carne facilita o balanceamento das dietas, ao possibilitar menor inclusão de carboidratos, cujo consumo excessivo associa-se ao aumento de doenças crônicas. Além disso, melhora a absorção de minerais, como ferro e zinco, e contribui com aminoácidos e ácidos graxos essenciais e de ação metabólica, a exemplo do ácido linoleico conjugado e do ômega-3.  A restrição da carne bovina na dieta pode implicar perda na qualidade de vida, mesmo que essa restrição não esteja gerando qualquer outro problema de saúde mais grave, como a anemia. Além disso, a carne bovina é muito desejada, como revela o aumento de seu consumo pelas populações, de um modo geral em resposta imediata ao aumento de renda. A carne bovina destaca-se, ainda, por poder ser servida todos os dias sem haver reclamação de estar sendo repetida. A qualidade da carne bovina é influenciada por inúmeras e complexas características. A aparência visual é determinada pela apresentação e pelo aspecto da carne, cuja coloração clássica é vermelho-intensa. Do ponto de vista gustativo, considera-se a sensação de prazer durante o consumo, o qual é especialmente associado à maciez da fibra muscular e à suculência, em razão da presença de gordura.

Produtividade, sustentabilidade e qualidade

A criação de gado bovino no Brasil foi iniciada com animais taurinos trazidos da Península Ibérica pelos colonizadores, os quais, depois de adaptados, deram origem às raças denominadas “crioulas” ou “taurinas localmente adaptadas”. Os zebuínos entraram no País, vindos da Índia, somente a partir do século XIX. Até o início dos anos de 1970, os mestiços zebuínos e desses com as raças crioulas compunham a maioria do nosso rebanho. Os trabalhos de melhoramento genético se restringiam à coleta de dados de genealogia e de provas zootécnicas, as quais foram implantadas no final dos anos 1960. A seleção de reprodutores era feita com base em características do biótipo animal, de acordo com o padrão racial.

A reprodução se fazia por monta natural, enquanto a inseminação artificial apenas dava os seus primeiros passos. A pecuária era mais desenvolvida nos biomas Pampa e Pantanal, com pastagens nativas de boa qualidade. Em áreas mais férteis, por exemplo, com capins do tipo jaraguá, gordura e colonião, o gado ganhava peso no período das chuvas, mas perdia boa parte dele na época seca seguinte. A grande fronteira a ser conquistada era o Cerrado, com solos ácidos e de baixa fertilidade, cujas pastagens naturais eram nutricionalmente muito pobres. Com baixos índices de desempenho, a produção sequer atendia a demanda do País, que apresentava um consumo de meros 18 kg de carne por habitante por ano.

Evolução

Felizmente, nos últimos 50 anos, várias foram as tecnologias incorporadas nos sistemas de produção, citando-se, inicialmente, forrageiras mais produtivas, resistentes às pragas e doenças e adaptadas a diferentes regiões e tipos de solo. Tecnologias pioneiras foram também desenvolvidas na nutrição mineral, com pesquisas das relações solo-planta-animal. Em seguida, vieram a suplementação proteica e proteico-energética para recria e terminação intensiva a pasto e para engorda em confinamento, com o surgimento de inúmeras indústrias produtoras desses insumos. Em genética e reprodução, progressos consideráveis foram alcançados por meio do lançamento pioneiro dos sumários de touros, matrizes e produtos, incluindo estimativas das diferenças esperadas na progênie (DEPs) e estratégias para os planos de acasalamento, pelo controle da consanguinidade e otimização dos valores genéticos dos futuros embriões. Mais recentemente, precisão cada vez maior para as DEPs tem sido proporcionada pela genômica, com reflexos positivos no melhoramento de características, tais como produtividade das matrizes, eficiência alimentar e qualidade das carcaças e da carne. Por sua vez, técnicas de inseminação artificial em tempo fixo, fecundação in vitro e transferência de embriões, outrora restritas a plantéis de seleção, chegam aos rebanhos comerciais. Em saúde animal, salienta-se o controle estratégico de vermes gastrintestinais e de parasitos externos, tais como moscas e carrapatos. Hoje, o calendário estratégico de manejo sanitário vem possibilitando o acompanhamento do rebanho, ao longo do ano, com aplicação de vacinas contra várias doenças, conforme recomendação técnica específica para cada categoria animal. Os sistemas de integração lavoura-pecuária (ILP) e lavoura-pecuária-floresta (ILPF) vêm sendo cada vez mais utilizados, com excelentes resultados para a conservação do solo, redução da pressão pela abertura de novas áreas e diversificação da produção. Outro ganho extraordinário é o melhor balanço na produção de gases de efeito estufa, especialmente pelo carbono armazenado nas árvores e raízes das pastagens, base dos sistemas Carne Carbono Neutro e Carne de Baixo Carbono – tecnologias pioneiras e genuinamente brasileiras.

Além desse ganho direto, salienta-se o bem-estar animal proporcionado pelo ambiente natural das pastagens e pela sombra das árvores. Com pastagens e nutrição adequada, saúde, genética animal superior e sistemas integrados, o ciclo de produção foi reduzido com expressivos ganhos em produtividade e qualidade da carne produzida.

Liderança mundial

Com a estimativa de 224,6 milhões de cabeças em 2021, 82% das quais destinadas à produção de carne, o rebanho brasileiro mais do que dobrou em relação aos anos 1970. Além disso, foram verificados, nesse período, ganhos excepcionais em diversos índices zootécnicos que proporcionaram ao País uma conquista sem paralelo em todo o mundo. Antes importador, o Brasil passou a ser autossuficiente na produção de carne bovina. Com 75% da produção destinada ao mercado interno, proporcionamos um consumo médio anual de 34,3 kg por habitante por ano, como observado em 2021 – um dos mais elevados do mundo. E com a produção excedente, apenas 25%, passamos à condição de maior exportador mundial, posição mantida desde 2004. Em 2021, foram exportadas para 155 países 2,48 milhões de toneladas, o equivalente a 30,3% do comércio mundial, com receita anual de US$ 7,4 bilhões. Com movimentação de R$ 913 bilhões, nesse mesmo ano, a cadeia produtiva, além de garantir segurança alimentar para a sociedade brasileira, representa uma importante fonte geradora de emprego e renda.

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