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21 de Sep

REVENDO O MAL DA VACA LOUCA

Por Zootecnista Henrique Costa Filho

Consultor Técnico Sustennutri

 

Nesse momento, em que as exportações de carne para a China, que é nosso maior comprador de nossa carne, estão suspensas em função de dois casos de “Vaca Louca” identificados em animais de abate em frigoríficos de Minas Gerais e Mato Grosso, vale a pena uma revisão sobre o assunto.

É importante frisar que a Organização Mundial de Sanidade Animal (OIE) já classificou esses casos como “atípicos” e encerrou os episódios ocorridos no Brasil, mantendo o país em risco insignificante para o Mal da Vaca Louca. Entretanto, protocolos sanitários em vigor com a China ainda não permitiram a reabertura das exportações a esse país. Como exemplo, a Arábia Saudita também havia suspendido as compras de carne brasileira, mas já retirou essa suspensão.

EEB é a sigla em português utilizada pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), para referir-se à doença Encefalopatia Espongiforme Bovina, que é internacionalmente conhecida pela sigla em inglês BSE - Bovine Spongiform Encephalopathy, a popularmente conhecida como "doença da vaca louca". A doença é do tipo neurológica degenerativa, crônica, transmissível, fatal, que pertence a uma família de doenças, que é denominada pela sigla, em português, EETs - Encefalopatias Espongiformes Transmissíveis.

O agente responsável por essas doenças, que também já foram encontradas em animais selvagens mantidos em cativeiro, que tinham sido alimentados com miúdos de vacas ou ovelhas, tem a natureza de uma misteriosa partícula infectante, que não é vírus, nem bactéria, nem fungo ou protozoário. Trabalha-se hoje com a principal hipótese, dentre duas ou três outras, de que se trata de um Prion (do inglês proteinaceous infectious particle, onde se troca a letra i pela letra o).

O Prion é uma partícula proteica infecciosa resistente à inativação pelos procedimentos usuais de sanitização. Ela é capaz de se multiplicar, promovendo um automorfismo de proteínas normais do sistema nervoso central. É a única molécula orgânica existente no planeta, sem DNA ou RNA, capaz de se autorreplicar, e que venham a se aglomerar formando placas no tecido nervoso do cérebro e medula.

Pode ser perigoso para os homens porque se acredita que a infecção se dê por ingestão tecidos de risco, como cérebro e medula espinhal de bovino com EEB, pois ainda não há tratamento para as pessoas acometidas.

Não há comprovação científica de que a EEB possa ser contagiosa horizontalmente, ou seja, pelo contato entre animais adultos da mesma espécie ou entre espécies. Também não foi comprovada experimentalmente a possibilidade de contágio vertical, da vaca para o bezerro, ou via embriões transferidos. O abate de animais de uma propriedade onde a doença seja diagnosticada em um animal, se dá pelo fato de que outros animais tiveram acesso à mesma alimentação que possa ter causado o caso específico.

No caso de epidemia de EEB no Reino Unido, os levantamentos epidemiológicos sugeriram que a infecção deve ter ocorrido a partir da ingestão de farinha de carne e ossos proveniente de carcaças de ovelhas com a doença Scrapie, conhecida há mais de 200 anos naquele país, porém, sem qualquer registro de cruzamento da barreira entre espécies até recentemente.

Uma outra possibilidade, cada dia mais lembrada, é de que a doença já existiria no gado bovino em níveis tão baixos que não chegavam a ser detectados, ou que o período de incubação era tão longo que o gado era abatido antes de apresentar sintomas. Em ambas as hipóteses, a disseminação teria ocorrido a partir do consumo pelos bovinos, de rações com farinha de carne e ossos contendo resíduos de tecido nervoso de ruminantes afetados por uma EET.

No caso da doença nos bovinos, a transmissão se dá através do consumo de rações contendo o agente da EEB, como farinha de carne de bovinos. enquanto em outras espécies animais há outras possibilidades de contágio, como a transmissão vertical nas ovelhas com a EET Scrapie. Esse é o motivo pelo qual o MAPA proibiu o uso de farinhas de origem animal (e cama de frango) das dietas de bovinos. Apenas a título de informação, os EUA nunca proibiram o uso das farinhas de origem animal nas suas dietas de bovinos, enquanto a União Europeia baniu o uso de farinhas de origem animal para todas as espécies (incluindo suínos e aves), o que está sendo agora revertido, com a autorização de uso de farinhas provenientes de suínos em aves, e de aves em suínos, mas ainda proibindo o uso dessas farinhas em dietas de bovinos.

Os animais afetados apresentam alterações do comportamento (nervosismo e agressividade), grande sensibilidade à luz, ao som e ao toque, dificuldades de coordenação motora e para ficar em pé, diminuição do leite, perda de peso; a doença sempre evolui para a morte, ou é preciso sacrificar os bovinos enfermos num prazo de dois a seis meses após o surgimento dos sintomas. Não existe tratamento para a enfermidade, nem vacina capaz de preveni-la.

Ainda não existe um teste laboratorial para detectar a doença no animal vivo, portanto, não se sabe quantos animais foram infectados num rebanho até que manifestem sintomas. A comprovação do diagnóstico é feita na fase post mortem pelo exame microscópico do cérebro ou pela detecção de uma forma alterada de Prion.

Até onde se sabe, o leite de vaca já foi muito testado, mas nunca foi encontrado qualquer indício de que pudesse estar contaminado pelo Prion das EETs. Entretanto é consenso entre as autoridades sanitárias de que não se deve utilizar o leite de vacas claramente doentes, suspeitas ou de risco.

Desrespeitar as instruções do MAPA podem trazer prejuízos não somente para uma propriedade, mas como para toda a cadeia de carne bovina brasileira, e o Brasil, como maior exportador mundial de carne bovina, precisa manter o status de risco insignificante para essa doença.

REVENDO O MAL DA VACA LOUCA

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