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20 de Jan

CEPEA: RETROSPECTIVAS DE 2020

Adaptado por Zootecnista Henrique Costa Filho

Consultor Técnico Sustennutri

 

O Cepea acaba de publicar em 08/01/2021 um relatório com as retrospectivas de 2020. A seguir, irei fazer um resumo desse relatório para os mercados de BOI e LEITE e, em uma próxima publicação, um resumo dos mercados de MILHO e SOJA, por serem importantes constituintes dos nossos produtos.

 

BOI: Recordes de 2019 são renovados em 2020

As intensas exportações brasileiras de carne bovina, especialmente à China, atreladas à oferta restrita de boi gordo no pasto, evidenciada por dados oficiais indicando menor número de animais abatidos em boa parte do ano, mantiveram os preços de todo o setor em alta no mercado nacional na maior parte de 2020. 

Em novembro, os preços do bezerro, do boi magro, da arroba do boi gordo e da carne atingiram recordes reais das respectivas séries do Cepea. No caso da arroba bovina, chegou a ser negociada próxima de R$ 300,00 no mês. 

A valorização da arroba, no entanto, não indica que o pecuarista conseguiu margem maior em 2020. Isso porque os animais de reposição (bezerro e boi magro) também operaram em patamares recordes reais das respectivas séries do Cepea em praticamente o ano todo. Além da reposição – que representa mais da metade dos custos de produção de pecuaristas recriadores –, a forte valorização do dólar em 2020 elevou os preços de importantes insumos pecuários que são importados. Ainda, insumos de alimentação do setor pecuário, como milho e farelo de soja, também subiram com força ao longo de 2020.

BOI – O Indicador do boi gordo CEPEA/B3 iniciou 2020 com média de R$ 235,34, atingindo, em novembro, R$ 285,33, recorde real da série histórica mensal do Cepea, iniciada em 1994 (as médias mensais foram deflacionadas pelo IGP-DI). Em dezembro, contudo, os valores se enfraqueceram, pressionados pelo afastamento de compradores. No campo, houve ligeiro crescimento na oferta de animais para abate, devido à saída de gado do segundo giro de confinamento.

BEZERRO – Como resultado do aumento do abate de fêmeas nos últimos dois anos e do crescimento no abate de novilhas, os preços médios mensais do bezerro renovaram os recordes reais ao longo de 2020. Esse cenário sustentou a rentabilidade do criador, que também se deparou com preços de insumos importados e da alimentação elevados. Em novembro, o bezerro nelore (de 8 a 12 meses) foi comercializado no estado de São Paulo a R$ 2.503,41, recorde real da série deste produto, iniciada em 1994. Em dezembro, o animal foi negociado na casa dos R$ 2.400,00.

BOI MAGRO – Os valores do boi magro também atingiram sucessivos recordes reais em 2020. Em novembro, o valor médio deste animal negociado no estado de São Paulo foi de quase R$ 3.800,00, conforme levantamento do Cepea. No último mês do ano, o boi magro foi negociado entre R$ 3.500,00 e R$ 3.700,00.

 

LEITE: 2020, ano de preços recordes no campo

O ano de 2020 foi marcado por adversidades. Do lado da demanda, a pandemia de coronavírus resultou em mudanças bruscas no comportamento do consumidor. Do lado da oferta, o clima prejudicou a atividade, devido às irregularidades das chuvas e às secas extremas, especialmente no Sul do País. Esses dois fatores, combinados, proporcionaram um ano de desequilíbrios entre a oferta e a demanda e de elevação substancial dos preços no campo. 

De acordo com pesquisas do Cepea, de janeiro a dezembro, o preço do leite (“Média Brasil” líquida) acumulou forte alta de 52,3%, influenciado principalmente pelas consecutivas elevações entre junho e outubro. O preço de outubro atingiu o recorde real da série histórica do Cepea, de R$ 2,1586/litro. Na média de 2020, o preço foi de R$ 1,7604/litro, 19,2% acima da registrada em 2019, em termos reais (valores deflacionados pelo IPCA). 

O isolamento social por conta da covid-19 iniciado no encerramento de março acabou interrompendo parte dos serviços de alimentação, importante canal de distribuição de lácteos, gerando grandes incertezas no setor. Como consequência, as indústrias diminuíram a compra de leite e orientaram produtores a “segurarem” a produção em abril. Os preços do leite captado naquele mês registraram queda pontual e isso teve efeitos sobre a produção, que permaneceu enxuta nos meses posteriores – também influenciada negativamente pelo clima. No entanto, o consumo foi sustentado pelo auxílio emergencial. 

Com isso, as cotações no campo se mantiveram valorizadas e estimularam o aumento da produção, mas isso aconteceu de forma lenta. Assim, a competição entre indústrias para a compra de leite no campo continuou acirrada, contexto que resultou em aumento das importações depois de julho.

As importações significaram um aumento na disponibilidade de lácteos, sobretudo de leite em pó, o principal produto da pauta, e possibilitaram menor pressão na concorrência entre as indústrias de laticínios para compra de matéria-prima. Contudo, as exportações também se elevaram em 2020, impulsionadas pelo dólar valorizado.

A diminuição do auxílio emergencial, o aumento do desemprego e os elevados preços na prateleira para o consumidor – não só de lácteos, mas também de outros produtos – enfraqueceram a demanda por derivados. A pressão dos canais de distribuição por preços mais baixos foi mais intensa, o que motivou a queda nos preços ao produtor em novembro (que se refere à captação de outubro). 

No entanto, esse movimento de desvalorização do leite no campo se deu ao mesmo tempo em que se intensificou a alta nas cotações de grãos. Além disso, a irregularidade de chuvas no final do ano, atribuída a La Niña, afetou tanto a produção dos grãos quanto a disponibilidade de pastagens e deve segurar a oferta de leite neste final de ano. Vale lembrar, também, que a valorização da arroba em 2020 estimula produtores a descartar matrizes leiteiras. Por um lado, esse fato proporciona uma maior especialização do rebanho e contenção de custos ao produtor. Por outro, configura uma perda de ativos produtivos que, somada a falta de investimento na atividade, torna-se um elemento que diminui a capacidade de retomada da produção, principalmente em bacias leiteiras menos tecnificadas.

 

 

CEPEA: RETROSPECTIVAS DE 2020

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