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26 de Oct

CARNE BOVINA BRASILEIRA E A CHINA

Por Zootecnista Henrique Costa Filho

Consultor Técnico Sustennutri

 

Nesse artigo tento resumir a minha interpretação sobre os principais acontecimentos envolvendo a suspensão das importações da carne bovina brasileira pela China, nossa maior compradora, em função de dois casos de “Vaca Louca” identificados em animais de abate em frigoríficos de Minas Gerais e Mato Grosso. É importante frisar que a Organização Mundial de Sanidade Animal (OIE) já classificou esses casos como “atípicos” e encerrou os episódios ocorridos no Brasil, mantendo o país em risco insignificante para o Mal da Vaca Louca. 

Rogério Goulart, na “Carta Pecuária” (https://sites.google.com/site/cartapecuaria2/) já estava alertando que o ciclo pecuário de alta já estava no final, e que a virada estava próxima, ou seja, na opinião dele, o teto já tinha sido atingido, seria de lá para baixo.

As exportações brasileiras são na ordem de 30% da produção, e a China respondia por 50% disso, ou seja, 15% do volume total exportado. Enquanto a exportação tem valores acima de 4.000 dólares, indo buscar até 5.500 no caso da China, os valores de comercialização interno trabalham com valores bem inferiores.

No informativo “Tem boi na linha”, da Scot Consultoria, de sexta-feira 22/10/21, a semana termina com preços estáveis. A cotação da arroba do boi, vaca e novilha para abate estão em R$266,00, R$260,00 e R$274,00, preços brutos e a prazo. Ao longo da semana a cotação do boi gordo caiu R$4,00/@, da vaca gorda R$1,00/@ e da novilha gorda R$6,00/@ (Figura 1). Os frigoríficos voltados ao mercado interno passaram a desfrutar de uma margem excelente, pois a @ caiu cerca de 10% e os preços no atacado, apenas 4%. Já em US$, nossa carne no mercado interno está cotada em US$ 45,91/@, ou 3,7% a mais que há um ano. Com esse valor da @ em US$ (já esteve em US$ 65/@), nossa carne volta a ficar fortemente competitiva no mercado internacional e, não por acaso, o Egito já voltou às compras, e o mercado norte-americano ganhou destaque nas vendas.

É importante salientar que 70% do volume produzido é para o mercado interno, e sabemos que os valores de carne na gôndola estavam puxados. 

Quando o governo brasileiro suspendeu as exportações para a China (pelo acordo existente entre os países), perdemos além do melhor comprador, o volume de 15% produzido. Mas o que mais está impactando, é que há 2 anos, quando houve a mesma suspensão, após 10 dias, tudo já estava resolvido. Então tanto os produtores como os Frigoríficos esperavam que fosse acontecer o mesmo. Os frigoríficos China, saíram do mercado por uma semana, e os produtores seguraram seus embarques. O tempo foi passando e nada aconteceu. O momento atual é totalmente diferente de 2 anos atrás. 

Aí aconteceu um dos maiores problemas já visto no mercado de carne brasileiro. “Frigoríficos China”, tinham sua produção praticamente voltadas 100% para eles, e basicamente a carne produzida para a China é desossada, retirada toda a gordura e congelada (muito diferente dos padrões de cortes brasileiro). Quando chega lá, os chineses usam nossa carne na produção de carne industrializada; carnes vendidas na gôndola, vem da Nova Zelândia, Austrália, Estados Unidos etc. O problema então era que esses frigoríficos tinham estoques produzidos, certificados para a China, mas não estavam ainda nos navios, visto que desde o abate até o embarque, temos um “delay” de 20 a 30 dias, agravado inclusive pelo Caos Logístico causado pela pandemia. Carne específica para a China, certificada para a China, o que os frigoríficos fizeram? Despacharam para a China. Afinal são quase 60 dias de viagem, então se tudo acontecesse como 2 anos atrás, até chegar lá, tudo já estaria resolvido. Acontece que o governo chinês não gostou disso pois, para eles, a partir do dia 04 de setembro, o Brasil não poderia embarcar mais nada para a China, mesmo que a carne estivesse certificada. Ninguém sabe direito quanto foi embarcado após dia 04, alguns falam em 100 mil, outros em 140 mil toneladas, isso corresponde a 450 a 650 mil animais, abatidos, pagos e sem saber se seriam aceitos pela China.

Resumindo tudo isso temos:

1) A perda do nosso maior cliente em termos de preço/volume e rentabilidade;

2) Represamento em vários estados de grandes volumes de animais, que extrapolaram os tradicionais 100 dias de cocho, e agora vão ter que sair de qualquer jeito. Com o crescimento da oferta de animais de confinamento, o movimento de queda nos preços da @ se intensifica, reduzindo e até zerando as margens de pecuaristas que fazem o confinamento, que apresenta custos bastante elevados;

3) Plantas frigoríficas com problemas milionários (ou bilionários);

4) Ajustamento de preços para o mercado interno viabilizar o consumo, já que os preços estavam muito altos para a atual situação econômica do país. 

Em raros momentos vimos pecuaristas e frigoríficos com o mesmo sentimento.

Para o Rodrigo Albuquerque, em seu Notícias do Front, de 23/10/21, até alguma confirmação oficial sair, continuo dizendo que ninguém tem certeza de nada! Como a questão da China fora das compras é claramente uma estratégia do governo asiático, ela pode perfeitamente ser resolvida de imediato ou apenas em 2022. Porém reforço: as sinalizações que os últimos contatos com a China revelam, não são boas.

Em matéria publicada na Folha de S. Paulo (coluna Painel) em 23/10/21, a ministra da Agricultura e Pecuária, Tereza Cristina, tem dito a interlocutores que o embargo à carne bovina brasileira deve terminar nos próximos dias e, por isso, sua viagem para a China não deverá ser necessária. Por meio de carta durante a semana, a ministra colocou-se à disposição para tratar pessoalmente da demora na retomada das importações de carne pelo país asiático. No entanto, atualmente ela tem dito que avalia que o problema está sendo contornado à distância sem percalços. O deputado Alceu Moreira (MDB-RS), liderança da Frente Parlamentar Agropecuária, diz que, com as informações que recebeu, tem convicção de que a situação será normalizada nos próximos dias, "até porque a China, mesmo sendo um país fechado, tem os importadores de carne, que são comerciantes. E eles podem dar desculpas para os consumidores de que a carne está faltando por um motivo ou outro, mas não por muito tempo. Com produto disponível e demanda para comprar, é muito difícil o governo segurar".

Não será fácil não superar esse momento, mas não é o primeiro, nem será o último. Temos que ter maturidade para entender a situação e cada um tentar resolver seu problema da maneira mais razoável possível.

CARNE BOVINA BRASILEIRA E A CHINA

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